História de amor na Saxônia
Diálogo com meu esqueleto (2001)
Uma vez estive passeando
nestes campos
com uma mulher de Hamburgo.
Houve tanto amor
e tanta ternura
que nos assustamos.
Fomos até a estação de trem,
à noite,
fazia muito frio. Nos despedimos
entre lágrimas e risadas nervosas
através dos vidros sujos do vagão.
Cada um regressando aterrado para casa.
Não me esqueço jamais deste instante
porque agora,
de vez em quando,
nós enviamos fotos, com nossos filhos.
E algumas palavras sutis.
Queremos tocar-nos, ao menos desse modo.
Há pouco me mandou uma foto com seus três filhos
e seu esposo.
E uma carta breve.
Ao final escreveu:
“Sobre minha vida amorosa,
porque sei que te interessa,
posso te contar
que tenho um amante platônico
e um real
mas disponho de pouco tempo.
Trabalho muito
e as crianças precisam sempre de mim.
Tuas fotos e tuas cartas
as guardo na caixa de veneno.
Beijos, amor, segues sendo meu homem ideal. A. B.”
Fonte: Estadão / Estado da Arte
Sobre o poema
Em História de amor na Saxônia, Pedro Juan Gutiérrez conta um encontro que termina, mas não desaparece. Os dois seguem suas vidas, formam famílias e continuam trocando notícias. O afeto encontra um lugar discreto entre fotografias, cartas e tudo aquilo que não chegou a acontecer.
O detalhe da “caixa de veneno” muda o tom do poema. Aquilo que é guardado com carinho também parece carregar algum perigo. Gosto dessa contradição: a lembrança de um amor pode ser bonita sem ser inocente, e nem toda história precisa continuar para permanecer importante.