Quase
Dispersão, 1914
Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d’espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…
Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos d’herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Sobre o poema
Há uma dor muito particular em Quase: a de enxergar com clareza tudo o que esteve perto de acontecer. Mário de Sá-Carneiro repete essa palavra até transformá-la numa espécie de destino. O eu lírico começou, desejou, tentou, mas sente que nunca chegou a viver plenamente aquilo que imaginava.
O verso sobre a asa que se lançou sem conseguir voar concentra essa frustração. E talvez seja o que mais incomoda no poema: nem sempre é fácil aceitar o que não aconteceu, principalmente quando parece que faltou tão pouco. Às vezes, o que permanece conosco é justamente a vida que imaginamos ter vivido.